terça-feira, 20 de setembro de 2016

Aceita que dói menos



Imagina que louco se todxs decidissem se amar do jeito que são? Seria, no mínimo, revolucionário e transformador. Exatamente o inverso da epidemia de cegueira descrita na ficção pelo romancista José Saramago. Algo como se tivéssemos nascido sem a capacidade de enxergar e, de repente, fôssemos contaminados por um vírus de epifania coletiva, geral e generalizada, com consequências drásticas para o cotidiano. Teríamos que reaprender a viver e a sentir o mundo ao nosso redor, com imagens, cores e angulações diferentes.

Não imagino que seria fácil, muito pelo contrário. A aceitação é um processo doloroso, confuso e longo. Ao fim, porém, ela empodera. E ter o poder sobre o próprio corpo é libertador. Parece óbvio, mas não é. As mulheres sabem bem disso. Somos ensinadas desde muito cedo a odiar nossos corpos. Reflita por uns minutos. Tudo que vemos, lemos, ouvimos, aprendemos até aqui é, essencialmente e resumidamente: por mais que você se goste, deve haver algo que precisa ser mudado, corrigido ou melhorado na sua aparência.

A opressão que sofremos é tão grande e arraigada que somos compelidas a encontrar algum “defeito de fábrica”. Nem preciso dar exemplos aqui. Pense nas mulheres que te cercam diariamente — parentes, amigas, colegas de trabalho, celebridades — e tente lembrar de alguma que esteja plenamente feliz e satisfeita com a própria aparência. Difícil, né? Quase impossível, eu diria. Cor de pele, peso, tipo de cabelo, pelos no corpo, tamanho do peito e da bunda, barriga, rugas e mais um infinito de possibilidades de razões para não se gostar.

Há quem culpe a indústria da beleza, a moda e seus padrões utópicos, ou até mesmo as blogueiras fitness. No entanto, é importante entender que tudo isso só existe porque vivemos numa sociedade em que mulheres são identificadas e reconhecidas como um objeto a serviço dos desejos masculinos. É preciso ser magra, bela, recatada e do lar, se quiser casar e constituir família. Quem não se encaixa nesse modelo, é puta, tudo puta.

Um parênteses: em respeito às prostitutas, essa palavra não deveria ser usada como ofensa. Mas desde quando puta “merece” respeito, não é mesmo?

O que eu vejo hoje é absurdamente incômodo e preocupante. Meninas morrendo em razão de distúrbios alimentares, como bulimia e anorexia. Jovens que antes dos 20 anos já fizeram diversas cirurgias plásticas. Mulheres na casa dos 30, 40 e 50 anos obcecadas em não aparentar a própria idade. Sem falar na concorrência que as próprias mulheres se impõem. Uma patrulha que é bastante desleal e cruel. A maioria de nós faz isso sem nem perceber, quando critica ou julga outra mulher por sua aparência, com comentários, além de machistas, gordofóbicos e até racistas, do tipo:

“Você está mais bonita agora que emagreceu”.

“Com tanta estria e celulite, deveria ter vergonha de usar um biquíni”.

“É muito velha para mostrar o corpo”.

“Cabelo liso é mais arrumado”.


Migas, melhorem. Costumo dizer que já somos oprimidas demais por homens. Não precisamos nos oprimirmos entre nós mesmas. Quando crianças, somos ensinadas que nosso corpo é pecaminoso. Só que isso não é verdade. Assim como também não é natural ou biológico que mulheres sejam mais emocionais e homens mais racionais. Nossos hormônios não tem culpa nenhuma. É tudo construído na infância. Nessa fase, as meninas são incentivadas a falar sobre seus sentimentos, expô-los. Já os meninos são proibidos de chorar, de expressar suas emoções, de falar sobre afeto, carinho e amor. A fragilidade, historicamente associada à mulher, é “argumento” para reprimir homens. É como o machismo opera.

Por isso, eu acredito que toda mulher nasce feminista, a sociedade patriarcal a corrompe. E por isso também que a revolução precisa ser e será feminista. Faz todo sentido
.

Bianca Nascimento, jornalista carioca de alma geminiana