Lembro de sempre ouvir que deveria me comportar como uma menina, andar como uma menina, me sentar como uma menina e isso nunca fez sentido, pois, eu mesma, sendo a menina em questão, não me achava na obrigação de fazer nada de nenhum jeito específico. 💚Laíssa Moreira, ilustradora, queimadora de bolos e dominadora de gatos
Cada uma de nós, mulheres, vive sua própria jornada nesse mundo. Nós somos o Ulisses moderno em nossa odisseia em busca de quem somos. Enfrentamos o cotidiano, nossos inimigos internos, ocultos, psicológicos. Enfrentamos as expectativas do que esperam de nós, enfrentamos nós mesmas e nossas próprias expectativas. Essa é a odisseia de cada uma de nós.
quarta-feira, 26 de outubro de 2016
Haja como uma garota
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Aceita que dói menos
Imagina que louco se todxs decidissem se amar do jeito que são? Seria, no mínimo, revolucionário e transformador. Exatamente o inverso da epidemia de cegueira descrita na ficção pelo romancista José Saramago. Algo como se tivéssemos nascido sem a capacidade de enxergar e, de repente, fôssemos contaminados por um vírus de epifania coletiva, geral e generalizada, com consequências drásticas para o cotidiano. Teríamos que reaprender a viver e a sentir o mundo ao nosso redor, com imagens, cores e angulações diferentes.
Não imagino que seria fácil, muito pelo contrário. A aceitação é um processo doloroso, confuso e longo. Ao fim, porém, ela empodera. E ter o poder sobre o próprio corpo é libertador. Parece óbvio, mas não é. As mulheres sabem bem disso. Somos ensinadas desde muito cedo a odiar nossos corpos. Reflita por uns minutos. Tudo que vemos, lemos, ouvimos, aprendemos até aqui é, essencialmente e resumidamente: por mais que você se goste, deve haver algo que precisa ser mudado, corrigido ou melhorado na sua aparência.
A opressão que sofremos é tão grande e arraigada que somos compelidas a encontrar algum “defeito de fábrica”. Nem preciso dar exemplos aqui. Pense nas mulheres que te cercam diariamente — parentes, amigas, colegas de trabalho, celebridades — e tente lembrar de alguma que esteja plenamente feliz e satisfeita com a própria aparência. Difícil, né? Quase impossível, eu diria. Cor de pele, peso, tipo de cabelo, pelos no corpo, tamanho do peito e da bunda, barriga, rugas e mais um infinito de possibilidades de razões para não se gostar.
Há quem culpe a indústria da beleza, a moda e seus padrões utópicos, ou até mesmo as blogueiras fitness. No entanto, é importante entender que tudo isso só existe porque vivemos numa sociedade em que mulheres são identificadas e reconhecidas como um objeto a serviço dos desejos masculinos. É preciso ser magra, bela, recatada e do lar, se quiser casar e constituir família. Quem não se encaixa nesse modelo, é puta, tudo puta.
Um parênteses: em respeito às prostitutas, essa palavra não deveria ser usada como ofensa. Mas desde quando puta “merece” respeito, não é mesmo?
O que eu vejo hoje é absurdamente incômodo e preocupante. Meninas morrendo em razão de distúrbios alimentares, como bulimia e anorexia. Jovens que antes dos 20 anos já fizeram diversas cirurgias plásticas. Mulheres na casa dos 30, 40 e 50 anos obcecadas em não aparentar a própria idade. Sem falar na concorrência que as próprias mulheres se impõem. Uma patrulha que é bastante desleal e cruel. A maioria de nós faz isso sem nem perceber, quando critica ou julga outra mulher por sua aparência, com comentários, além de machistas, gordofóbicos e até racistas, do tipo:
“Você está mais bonita agora que emagreceu”.
“Com tanta estria e celulite, deveria ter vergonha de usar um biquíni”.
“É muito velha para mostrar o corpo”.
“Cabelo liso é mais arrumado”.
Migas, melhorem. Costumo dizer que já somos oprimidas demais por homens. Não precisamos nos oprimirmos entre nós mesmas. Quando crianças, somos ensinadas que nosso corpo é pecaminoso. Só que isso não é verdade. Assim como também não é natural ou biológico que mulheres sejam mais emocionais e homens mais racionais. Nossos hormônios não tem culpa nenhuma. É tudo construído na infância. Nessa fase, as meninas são incentivadas a falar sobre seus sentimentos, expô-los. Já os meninos são proibidos de chorar, de expressar suas emoções, de falar sobre afeto, carinho e amor. A fragilidade, historicamente associada à mulher, é “argumento” para reprimir homens. É como o machismo opera.
Por isso, eu acredito que toda mulher nasce feminista, a sociedade patriarcal a corrompe. E por isso também que a revolução precisa ser e será feminista. Faz todo sentido.
Bianca Nascimento, jornalista carioca de alma geminiana
quarta-feira, 22 de junho de 2016
A inteireza de uma mãe
Outro dia a Aline Fonseca escreveu aqui sobre não ser mãe e ser uma mulher inteira. Eu hoje escrevo sobre ser mãe e continuar a ser uma mulher inteira. Porque ser mãe é algo que chega como uma avalanche, no princípio parece que toma conta de tudo e demora um tempo para você catar os caquinhos de si e se reconstruir como um ser completo.
No livro novo do Murakami, "Sono", a protagonista não consegue mais dormir, passa 17 dias insone, mas, em vez de se sentir cansada, sente-se extremamente viva, pois passa a ter várias horas seguidas só para ela, as quais despende lendo sem interrupções, bebericando conhaque e comendo chocolates. E olha que ela nem trabalhava fora de casa. Me lembrei de outra protagonista, a Laura, de "As Horas", que finge ter afazeres fora de casa, para pedir à vizinha que fique com seu filho e ela possa pagar um hotel para ler durante a tarde. E olha que ela também não trabalhava fora de casa.
Me lembrei de mim mesma e de tantas outras mulheres contemporâneas, especialmente com filhos e muito trabalho, tudo junto, e de nossa avidez por horas só nossas. E esta quase urgência de gastá-las silenciosamente adentrando outros universos, por meio de livros, acho que se chama introspecção, uma necessidade de olhar para dentro, se reconhecer no outro e ser um pouco só espectadora do mundo. (Que pena que preciso dormir tanto).
Hoje eu amo ser mãe, mas o papel foi se tornando mais fácil para mim na medida em que não ocupava mais a minha vida inteira, na medida em que havia tempo e espaço para os meus outros eus. Quando os meninos eram pequenos demais, muitas vezes eu me perguntei onde estava a minha vida, quando as crianças exigiam atenção quase 100% do tempo.
À medida que as outras faces de mim puderam de novo fluir mais livremente - a parte que lê, a que escreve, a que gosta de filmes, música, interagir com os amigos, namorar, ter tempo para o cuidado de si, e não só para o cuidado com os outros -, à medida que fui de novo me encontrando comigo mesma, fui gostando mais de ser mãe. Fui sentindo com mais força o prazer da troca, da cumplicidade, o prazer de sentir o maior amor do mundo. Em síntese, eu (quase sempre) curto ser mãe. Mas gosto mesmo é de ser uma pessoa inteira.
Lara Haje, uma mãe e mulher inteira
segunda-feira, 13 de junho de 2016
De vítima a protagonista
Sou a mais velha de quatro irmãos. Tivemos uma infância muito difícil, com poucos recursos ou nenhum. Minha mãe era dona de casa e meu pai sempre trabalhou na construção civil, o que significa que em certos momentos de nossas vidas ele esteve desempregado e, nesse ramo, quanto mais velho se vai ficando, mais difícil é voltar ao mercado de trabalho. Então, ainda muito cedo na vida, aprendi que "para o mundo, as pessoas valem o que têm". E nós não tínhamos muita coisa.
Lembro-me bem de momentos em que um dos meus irmãos, para ir à escola, tinha de esperar o outro chegar para usar a mesma sandália. E essa era só umas das várias situações que vivemos devido à vida precária e cheia de limitações que levávamos.
Aos dez anos, eu já sabia o que era ser dona de casa, cuidava dos meus três irmãos mais novos e já tinha responsabilidades de uma pessoa adulta. Aos doze descobrir da pior forma possível que era uma filha adotada e senti que tudo o que havia vivido até ali tinha sido uma mentira. Do dia para a noite, perdi minha identidade, meu chão. Não sabia mais quem eu era e junto com isso vieram as mágoas, decepções, traumas, medos, incertezas, autoestima baixa, complexo de inferioridade, insegurança, entre outras coisas que faziam com que eu tivesse pena de mim mesma e procurasse sempre um culpado para tudo o que desse errado na minha vida. Magoei pessoas, decepcionei outras tantas e fui ingrata com quem não merecia.
Comecei a namorar muito cedo, fui mãe aos 16 anos, saí de casa contra a vontade dos meus pais que, apesar das decepções que lhes causei, sempre me apoiaram, e fui morar com o pai da minha filha. Essa, aliás, foi uma péssima escolha, porque, literalmente, comi "o pão que o diabo amassou". Claro que também tive a minha parcela de culpa, mas era muito imatura e cheia de certezas "incertas". Sofri muito. Quebrei muito a cara, mas aprendi, a duras penas, aprendi.
Tomei a decisão de me separar quando minha filha tinha 10 anos. Ela sofreu muito, principalmente com o desprezo da parte do pai para com ela e ficaram mágoas, traumas e decepções dela em relação ao pai. Foram tempos difíceis, voltei para a casa dos meus pais e tivemos muitos contra tempos.
Dois anos depois, conheci aquele que seria meu marido e pai dos meus dois filhos, o nosso namoro foi algo mágico, mas também vieram alguns momentos de incertezas e preocupações. Após o nascimento do nosso filho do meio, decidimos nos casar. E meu marido se tornou a referência de pai para a minha primeira filha, tanto que ele a adotou e é presente, dedicado e amoroso, meu melhor amigo e companheiro, mesmo depois de dez anos!
Com tudo isso que contei, aprendi que, independente da situação que esteja vivendo, precisamos ser gratos e perseverantes, procurar ser melhores a cada dia, mudar e fazer valer a nossa história, porque acredito que não estamos aqui por acaso.
Às vezes, penso que gostaria que alguém, em algum momento da minha vida, tivesse me dado uns "tapas" na cara, para que eu pudesse acordar, parar de me fazer de vítima e de procurar culpados para justificar meus erros e falta de atitude. Mas a vida me ensinou. Eu ainda não sou quem gostaria de ser, mas também já não sou quem eu era. É uma grande busca, mas também um grande encontro.
Luciana Oliveira, que demorou a parar de se achar vítima do mundo e ver que a mudança de sua vida só dependia dela
domingo, 12 de junho de 2016
Em busca de si mesma
Um dos movimentos para o resgate de mim mesma foi comprar plantas. Em uma tarde, após deixar as crianças na escola, passei no mercado de flores e voltei para casa com 12 tipos de folhagens. Espalhei todas pela sala, me sentei no sofá e admirei minha pequena floresta. Mexer com terra, sentir o cheiro dela, ver os brotinhos crescendo e as folhas mais velhas secando e morrendo, todo esse ciclo me aproxima da minha essência, como se eu precisasse da natureza, da terra, para me sentir firme, com os pés no chão, forte, para me reencontrar.
Eu me perdi quando tive meu segundo filho, há dois anos e meio. Depois de uma gravidez desejada e tranquila, e um parto tenso, o Rafael nasceu lindo, gordinho, aparentemente saudável. Não me esqueço da felicidade ao senti-lo em meus braços, ao ver minha primeira filha, na época com 5 anos e meio, pegá-lo no colo, ao observar a emoção do meu marido segurando o garoto que ele desejava. Mas essa sensação de plenitude se transformou rapidamente em desespero.
Como inúmeras mães, não conseguia amamentar, apesar de o leite escorrer dos meus seios. Enfermeiras, técnicas de enfermagem, fonoaudióloga, obstetra, pediatra, otorrino, mãe, sogra, amiga, foi tanta gente tentar me ajudar que aquele quarto de hospital parecia uma feira e eu me sentia exposta, à flor da pele, de certa forma violada. Os dias se passaram e não pude ter alta porque o Rafinha continuava com fome, sem conseguir mamar no peito, irritado com o excesso de manipulação na boca dele. A alimentação ocorria somente por meio de sonda ou de copinhos descartáveis de café. Uma semana depois do parto, pedi para a médica me dar alta, mesmo sem conseguir amamentá-lo. Eu precisava de tranquilidade e achava que meu bebê e eu nos entenderíamos no sossego de casa. Mas não foi bem assim...
Apesar da ajuda de uma enfermeira, que nos visitava três vezes por semana, o Rafa nunca conseguiu mamar no meu peito e não ganhava o peso esperado pelos médicos. Naquele momento, eu me sentia frustrada porque, pela segunda vez, amamentar era sinônimo de angústia – a experiência com minha primeira filha também foi dolorosa e difícil. Dessa vez, porém, o problema era muito maior. Meu menino tinha dificuldade de sugar por causa de limitações motoras, descobertas meses depois.
Quinze dias após o nascimento do Rafael, meu marido, minha filha e eu vivemos certamente o momento mais aterrorizante de nossas vidas. Eram mais ou menos 22h, o Rafinha havia acabado de mamar e estava no colo do meu marido para arrotar quando vomitou e engasgou. Perdeu a respiração, ficou roxo, mole, desfaleceu. Eu estava no quarto e levei um susto enorme ao ouvir o grito do meu marido chamando o Rafael e sacudindo, em vão, aquele corpinho frágil. Minha primeira reação foi pegar o interfone para pedir socorro a uma vizinha, médica. Tocou, tocou, tocou, mas ninguém atendeu. Liguei para os bombeiros, para o Samu e nada... Enquanto isso, meu marido continuava gritando, chamando o Rafael, dizendo que ele iria morrer. Minha filha, que tinha acabado de sair do banho, assustada com os gritos, não parava de chorar.
Foi quando meu marido, desnorteado, colocou o Rafa debaixo da torneira. Aquela água gelada fez meu pequeno tomar fôlego, voltar a si. Mas ele continuava mole, assustadoramente pálido e fraco. Liguei para uma amiga, também médica, que morava perto da gente. Ela chegou em cinco minutos e reanimou o Rafa, mas ele novamente engasgou. A aquela altura, eu já havia ligado para o meu pai, que foi correndo para a nossa casa e conseguiu telefonar para o hospital.
Não sei quem dirigiu o carro naquela noite, mas me lembro de chegar ao hospital e encontrar uma enfermeira na porta, à espera da gente. O Rafa foi para a UTI e ficou por lá. Perto da porta da UTI, havia uma escada de emergência. Eu subi e desci aqueles degraus não sei quantas vezes, perdida, desesperada, chorando, sem resposta nenhuma.
Naquela madrugada, o Rafa se recuperou. Passou por um procedimento de aspiração e pôde voltar para casa algumas horas depois. Mas eu, eu nunca me recuperei. Só de pensar naquele dia, entro em pânico. Se para uma mãe que nunca presenciou a quase morte do filho é assustador vê-lo engasgar, para mim qualquer "cof cof" ganha uma dimensão tão grande que sinto taquicardia.
Aquele episódio e diversos outros em que ele esteve na iminência de perder o ar nos fizeram entender que havia algo errado com nosso filho. Ele engasgava demais e não engordava de jeito nenhum. Decidimos procurar ajuda, mas cada profissional tinha uma hipótese diferente para a dificuldade do Rafa. Cogitaram refluxo e trocamos o leite, inclinamos o colchão do berço, demos remédio. Pensaram no frênulo lingual e procuramos uma dentista, que fez um pequeno corte para, quem sabe, facilitar a movimentação da língua. Concluíram que era um problema de deglutição e o Rafa teve de ser submetido a um procedimento tão invasivo que não consegui permanecer na sala de exames até o final.
Essa maratona me desestruturou. Sou jornalista, trabalhava na época em uma redação de jornal, voltava para casa de madrugada. Percebi que não podia continuar naquele ritmo, que tinha de olhar para o meu filho com mais cuidado e atenção. Em uma sexta à noite, após fechar a edição do jornal, abri o jogo com um colega e grande amigo e decidi que deveria parar de trabalhar. Pedi para ser demitida, apesar de precisar muito daquele emprego, do plano de saúde, do vale-alimentação, do décimo terceiro salário. Pouco tempo depois, me demitiram e finalmente pude acompanhar meu filho em todos os exames, nas aulas de estimulação precoce e nas inúmeras consultas à neuropediatra, à fonoaudióloga, à terapeuta ocupacional, à fisioterapeuta, aos profissionais do hospital Sarah Kubitschek.
Até hoje, depois de exames e consultas aqui e em São Paulo, não sabemos o que o Rafa tem. Mas temos consciência de que ele não segue o comportamento padrão das crianças da mesma idade. Demorou a firmar a cabecinha, a engatinhar, a andar. Não fala quase nada. Tem complicações motoras, como hipotonia, desequilíbrio e coordenação motora fina deficiente. Cai toda hora, machuca a boca, tem dois dentes quebrados.
Em meio a tantas dificuldades, tento lidar com preconceitos – os meus e os dos outros. Sempre tive um olhar de compaixão pelas pessoas com algum tipo de deficiência e por suas famílias. Admirava as mães e tentava imaginar o tamanho do sofrimento delas. Sentia raiva ao ver e escrever reportagens sobre a falta de acessibilidade e de outros direitos básicos dessas pessoas. Mas nunca pensei que EU poderia ser mãe de uma criança com deficiência. Aliás, falar sobre isso me assusta muito. Talvez porque ainda não aceitei essa realidade. Talvez porque a realidade não seja exatamente essa, já que não tenho um diagnóstico e meu filho pode ter simplesmente um "atraso", que será superado ao longo do tempo.
Falar sobre isso também me deixa com medo – de não aceitar verdadeiramente as limitações do meu filho, de vê-lo sofrer preconceito na escola e ser apontado na rua como um coitadinho que não anda direito, baba além da conta e fala com dificuldade.
Também tento lidar com outra forma de preconceito. Agora, sou "apenas a dona de casa (como se esse fosse um ofício 'menor')", "a que não trabalha fora", "a que vive às custas do marido e para os filhos", "a que não faz nada e tem todo o tempo do mundo". Já ouvi comentários semelhantes inclusive de gente bastante próxima, como um querido amigo de infância.
Como nossa sociedade é cruel com as mulheres e nos torna cruéis com nós mesmas! Quantas vezes eu – que quase sempre estou com o Rafa a tiracolo, correndo como uma louca entre uma atividade e outra, sem maquiagem, sem esmalte na unha e com a primeira roupa que encontrei no armário – já me peguei pensando que sou inferior por não estar no mercado de trabalho, por não ser como aquela mulher linda, em forma, com unhas perfeitas, cabelos arrumados e dinheiro na bolsa para comprar o que desejar?! Sofro muito com esse tipo de pensamento e todos os dias me policio para não cair nessa armadilha. Até porque aquela mulher linda também não é perfeita, pode ser infeliz por não ter uma família, por se sentir sozinha, por qualquer outro motivo. Assim como a dona de casa pode sofrer porque gostaria de trabalhar fora, mas não pode. Todas temos limitações e precisamos aceitar isso. Eu preciso aceitar isso.
Já tive madrugadas catárticas, de choro até o amanhecer. Já saí dirigindo sem rumo, com as janelas abertas, para sentir o vento no rosto, e uma música alta, para não pensar em nada. Já fui à igreja, em busca de uma espiritualidade há tempos deixada de lado. Já retomei a terapia, que tem me ajudado a lidar com esse turbilhão de sentimentos e a me entender melhor. E estou cuidando das plantas.
Não saber o que meu filho tem é extremamente angustiante: pode ser um leve atraso; uma doença degenerativa grave, que o fará perder os movimentos gradativamente até não sei que ponto; uma doença metabólica grave. Pode ser tanta coisa que, se eu for pensar nisso o tempo todo, certamente enlouqueço. Contudo, nestes dois anos e meio, eu vivo intensamente.
Cresci como pessoa, mãe e mulher, comecei a perceber as delicadezas da vida, da natureza, aprendi a ser mais tolerante, compreensiva e solidária e exercito diariamente a minha paciência. Não está sendo fácil administrar tantas emoções, incertezas, tantos medos. Principalmente para mim, que jurava ter o controle das coisas. Aliás, nesse período, aprendi que não temos o controle de nada. Hoje estou aqui, amanhã posso não estar. Hoje sou saudável, amanhã posso descobrir uma doença avassaladora. Hoje sou feliz, amanhã posso não ser. Por isso, tento viver um dia de cada vez e pensar que tudo vai dar certo. Ao menos, tento...
Pensando bem, eu não só me perdi quando tive meu segundo filho. Eu também me achei.
Letícia Souza, jornalista e mãe da Malu e do Rafa, e também uma mulher que se perdeu e se achou
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Dona da própria história
É possível superar o ciclo da violência, da desigualdade, do preconceito? Essa é a história de Isabel Valadares
Uma mulher invisível?
Diante de tantas notícias tristes de violência contra a mulher – de insultos a estupro coletivo, é impossível não olhar pra si mesma, para os outros, ao redor, para quem mora na sua casa, para seus colegas de trabalho, com os mesmos olhos. Cada comentário, gesto e olhar traduzem preconceitos, histórias, comportamentos e até achismos.
Depois de olhar o entorno, olhei pra dentro, olhei pra Fernanda. O que, nesses 32 anos de vida, ouvi, senti, me envorgonhei ou me orgulhei. E pensei muito sobre o que mostro para os outros, o que deixo que vejam. Tá, eu deixo muito pouco.
Quem me conhece sabe que sou uma pessoa pouco vaidosa. Não vou dizer sem vaidade, porque acredito pouco no exterior, na plástica, na matéria. Acredito mesmo no que está dentro (e lógico, na transformação do universo, NÉAM?). a vaidade – sem teorismos minha gente - tem muito a ver com o que se esconde lá no fundo – de traumas à felicidade.
Mas aí me perguntei: por que sou assim? Tenho mãe, madrasta, tia, avós, irmãs muito vaidosas. E cheguei a uma conclusão simples: não gosto de chamar atenção e nunca gostei. Isso quer dizer que, pra mim, eu usar um colar lindo, grande, é chamar atenção. Eu pintar meu cabelo de rosa, é chamar atenção. Eu usar uma saia mais curta, é chamar atenção. Você deve estar pensando: você jura mesmo? Que bobagem. Pode ser, mas isso foi uma forma que encontrei de me proteger.
Sim, me proteger de abusos. Oi? Sim. Evitar e evitar. De ser olhada no ponto de ônibus e ser chamada de gostosa. De sentar no banco do metrô e olharem para as minhas pernas, de piadinhas de corredor no trabalho, da transparência da roupa ser sinônimo de puta, do meu decote dizer “me coma”, da calça branca mostrar muito a minha bunda.
Isso sempre foi comigo. Sempre achei demais mulheres que não estavam nem aí pra isso. Talvez, por isso, sempre fui rodeada de mulheres que mostram e querem ser vistas. E tive momentos em que soltei meus cabelos, usei batom vermelho, saltão, uma saia bem curta, porque fui encorajada por elas e me senti muito bem assim, obrigada. Mas, sem elas do lado pra me bancar, nunca.
Sempre foi eu, nunca os outros. Tudo isso me fez lidar de um jeito diferente sobre a tal da vaidade, o de estar linda – aqui leia-se linda como o mundo acha que a beleza deve ser.
E a verdade é que acho péssimo me ver assim. Me ver “derrotada” pelos olhos dos outros. Não é mimimi – desse tipo não sou. É porque, sim, abusos acontecem o tempo todo. E me dei conta, lendo todas essas histórias, ouvindo amigas, conhecendo o dia a dia – triste, muito triste - de tantas manas. Desde criança, ouvimos “como ela cresceu e está linda”, “linda desse jeito deve estar cheio de namoradinhos”, fora os “oh lá em casa”, “gostosa” e por aí vai.
Eu só queria me proteger. Só queria evitar lidar com esses bla blás” e, por que não dizer, de abusos, de um estupro. Hoje ainda sou assim, só que mais corajosa. Corajosa porque sei que tem mina pra caralho junto comigo, dizendo NÃO, muitos NÃOs.Fernanda Fontes é mineira, mas mora em São Paulo desde bebê. A alma fala uai, mas a armadura é paulistana. Formada em jornalismo, corinthiana e feminista desde criancinha.
O que espero daqui pra frente? Me mostrar. E isso só pode acontecer porque as minas estão abrindo meus caminhos. E ainda é um longo caminho.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Só por hoje, não atrapalhe uma mãe
Ter filho é maravilhoso! É um amor tão grande, mas tão grande, que parece que vai soterrar a gente. A maternidade tem sido a experiência mais feliz, intensa, divertida, exigente, cansativa e transformadora da minha vida. Agora, ser mãe, nos dias de hoje no Brasil, é muito chato. A mãe se sente julgada e condenada por todos o tempo inteiro. Eu me sinto assim, pelo menos.
As pessoas talvez não percebam, mas a mãe está fazendo o melhor que pode dentro de suas restritas possibilidades. A mãe está sozinha, sem apoio, sem valorização. Ela está num apartamento da Asa Sul com um bebê recém-nascido nos braços, cheia de medos e dúvidas, enquanto todos tocam suas vidas normalmente, como se um cataclisma não tivesse acontecido (mas aconteceu!).
A mãe está sem dormir há vários meses. Em alguns casos, há anos. Ela perdeu suas referências internas, está sem trabalhar durante os meses da licença, sai pouco de casa. Ela quase não tem vida social, até porque os lugares onde a vida social acontece não estão preparados para receber mães com bebês.
A vida que a mãe tinha antes desapareceu de uma vez só. O francês, a yoga, a análise –foi tudo para o brejo. Esse processo é de luto, minha gente. Vamos deixar a mãe viver isso em paz. A mãe está revivendo e reelaborando suas próprias experiências infantis ao cuidar do bebê. Sim, a gente passa a ver nossos pais com outros olhos depois que vira mãe. Mas isso não é necessariamente uma coisa boa. A mãe ainda não se descobriu por completo na nova vida. Ela não sabe como a nova vida vai ser.
Nesse contexto, todos os conselhos, por mais bem intencionados que sejam, atrapalham, porque geram mais dúvidas na cabeça já povoada de inseguranças, medos e perguntas da mãe. Vamos parar de atrapalhar a maternagem alheia. O processo em si já é muito difícil, não precisa atrapalhar não.
Querida titia viciada em coca zero, por favor, não visite o sobrinho dois anos com uma latinha na mão, principalmente quando você sabe que a mãe está engajada num projeto de alimentação saudável, livre de industrializados, nessa droga de mundo que nos empurra lixo disfarçado de comida o tempo inteiro.
Querida prima do papai, tia do papai, parente distante, não olhe para a mãe com cara de espanto ao descobrir que o bebê de um ano e nove meses ainda mama no peito. Caso vocês não saibam, a Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação pelo menos até os dois anos.
Querido Planeta Terra, a amamentação não é assunto seu! Não é assunto de ninguém, só da mãe e do bebê. Favor fazer cara de paisagem, olhar para o outro lado e deixar a dupla mãe/bebê em paz.
Querida vovó, não diga que chupeta não faz mal e que mamadeira não atrapalha a amamentação. Atrapalha sim! E você não entende nada desse assunto, já que desmamou a mãe quando ela tinha apenas um mês de vida.
Cara diarista, não diga que o pescoço do recém-nascido vai ficar torto por causa do bebê conforto. Não vai. Pare de estressar ainda mais a pobre mãe.
Prezados médicos, enfermeiros, odontopediatras e outros profissionais da área de saúde, vamos parar de tratar a mãe como um ser digno de pena. Bora descer desse pedestal aí! E, de uma vez por todas: parem de mentir para a mãe. Parem agora.
Apenas por hoje, pessoal, vamos facilitar a vida da mãe, que está cortando um dobrado para dar conta do bebê e de si mesma. Só isso já seria uma grande coisa.
Agora, sonhando com um mundo ideal, podíamos todos reconhecer que a mãe, ao maternar, exerce uma atividade relevante socialmente, de importância para toda a sociedade. A mãe está empenhada na árdua tarefa de criar um ser empático, amoroso, ético, responsável. A mãe cria uma pessoa que vai viver em sociedade e agir sobre ela, sobre o mundo. Que trabalho pode ser mais importante do que esse? Que tal passarmos a valorizar e apoiar isso, inclusive com recursos financeiros, como a licença maternidade de dois anos, por exemplo? É pedir demais?Juliana Garcia, mãe de Mateus, de dois anos e três meses
Do silêncio do passado ao grito do presente: não nos calaremos!
Eram 6h da manhã do dia 1º de janeiro de 2007, quando acordei no sofá da casa dos irmãos JJ. Estava de ressaca e as cenas da noite passada surgiam aos poucos como flashes difusos, sem muito sentido.
Eu tinha 15 anos.
Bagunça ao redor... todo aquele caos era resultado de uma festa de réveillon que fizemos na noite anterior com amigos. Meu vestido branco estava sujo. Isso me fez lembrar de um momento da madrugada, quando sentei na calçada em frente à casa dos irmãos JJ, sentindo o mundo e o estômago girar.
Em seguida, recordei cenas que até hoje figuram como as últimas memórias daquela noite: R., amigo que conheci na festa, se aproximando e me carregando até a sala dos irmãos JJ; ele sentou no sofá para cochilar e isso me permitiu deitar ali e acomodar a cabeça em seu colo. Adormecemos.
A casa estava vazia quando acordei. Me dirigi até a porta, mas antes que pudesse sair, K., uma amiga, entrou perguntando se eu estava bem. Ela parecia nervosa e assustada. Estava nitidamente preocupada comigo. Havia algo estranho no ar.
Respondi que estava bem, apesar da ressaca e perguntei se havia algo errado. “Você não se lembra de nada?”, ela questionou, com olhos arregalados, e iniciou um relato que me marcou para sempre.
K. me contou que R. acordou durante a madrugada e flagrou S., um amigo dos meus irmãos que eu conhecia desde a infância, no sofá. S. estava debruçado sobre o meu corpo, com as mãos sob o meu vestido, enquanto eu estava desacordada... R. imediatamente o afastou de mim e o arrastou para fora da casa, onde ocorreu uma briga.
Fiquei em choque após escutar tudo isso... Lembro da raiva, do asco. Me senti violada. Eu queria sair dali e foi o que fiz. Mas a pior das sensações ainda estava por vir: a culpa.
Me senti culpada por ter bebido demais naquela noite... senti que de alguma forma EU poderia ter evitado aquilo. Tive medo da possível reação dos meus pais e irmãos. Tive medo de ser julgada, de ser considerada uma mentirosa por eles... e me doeria mais ainda ouvir da minha família que eu mereci aquilo por ter bebido muito... era um risco. Me calei e jamais contei essa história.
Mas hoje eu grito:
A CULPA NÃO FOI MINHA! A CULPA NÃO É NOSSA!
A culpa não é da moça desacordada que sofreu abuso sexual! A culpa não é da adolescente de 16 anos que foi estuprada por 33 homens quando estava inconsciente e teve a imagem divulgada na internet! A culpa não é da moça que estava embriagada no réveillon e foi estuprada no estacionamento pelo segurança da festa! A culpa nunca é da vítima!
A culpa é da cultura do estupro, que está incrustrada em todos os níveis de nossa sociedade, do público ao privado, do cidadão ao Estado. O problema é a cultura do estupro, que impõe o sentimento de culpa e vergonha às vítimas, fazendo com que muitas vezes elas se calem, não denunciem.Dedico esse texto a todas nós, mulheres. Dedico, também, à R., que não se omitiu diante do ocorrido e por quem nutro enorme apreço e gratidão.
Grito por todas as mulheres que já passaram por experiências como essas. Grito por mim e pela minha cura. Grito pela urgência de quebrar esse silêncio. Grito pelo fim da cultura do estupro!
V.A., uma mulher corajosa que, pela primeira vez, compartilhou essa história
quarta-feira, 1 de junho de 2016
A arte de inspirar e de se inspirar
Essa é a história de Gina Vieira, professora da rede pública de ensino no Distrito Federal e responsável pelo projeto "Mulheres Inspiradoras", que tem como objetivo apresentar personalidades femininas a estudantes do ensino médio, motivando-os a encontrarem suas próprias mulheres inspiradoras e, dessa forma, incentivar o respeito à igualdade de gêneros.
Mas esse projeto também mudou Gina de uma forma genuína, a forma como ela mesmo se via. Dá uma olhada na história:
Você é louca!?
“Você é louca!” ou “Isso é coisa da sua cabeça!”. Essas frases são muito poderosas quando ditas por alguém que você ama. Mas isso também tem nome, se chama “gaslighting” e significa “fazer alguém enlouquecer”, desmentir as memórias do outro, distorcer a história e uma forma de culpabilizar a vítima. E de tanto ouvir isso, a essa altura, você realmente está perdendo a cabeça. Foi assim com D.S, que preferiu não se identificar para contar essa história.
“No começo, eu achei que era insegurança, que o problema realmente estava comigo, que lá dentro de mim tinha algo com o qual eu não sabia lidar. E eu me senti assim por muito tempo. E era horrível”, conta.
Ela esteve em um relacionamento em que o companheiro, a um certo ponto, não apenas admirava mulheres bonitas que passavam por ele, mas ficava completamente absorto, inebriado por longos minutos, a ponto de não se importar com mais nada, ainda que a namorada estivesse ao lado.
“Era uma dor profunda. E quando eu comentava e criticava aquela postura, a resposta era só que aquilo era coisa da minha cabeça”, diz. “Cheguei a perguntar para amigas e amigos sobre aquilo, se viam a mesma coisa que eu, se eu realmente estava ficando louca. Uma amiga me contou que já havia percebido aquele comportamento.”
Eventualmente, o relacionamento terminou, mas D.S. buscou entender tudo aquilo. Foi quando se deparou com um texto sobre o gaslighting. “Foi quando eu percebi que não, não era coisa da minha cabeça. Era não apenas um desrespeito, mas era uma violência emocional contra mim. Aquilo era uma violência e é por isso que eu ficava tão afetada. Porque era uma violência”, afirma.
Nessa busca de si mesma e pelo que passou, D.S. só tem uma certeza:
“Ninguém pode me dizer quem eu sou e o que eu quero. Só eu sei se o que eu quero é bom ou adequado para mim. Assim como não posso dizer o que é bom ou adequado para a vida de qualquer pessoa. Portanto, se os quereres são incompatíveis, qualquer mulher precisa identificar o que está acontecendo e se respeitar – mesmo que isso lhe cause dor a princípio. Respeitar-se como mulher também requer viver a dor de reconhecer uma escolha errada e sair de um relacionamento em que a sua vontade não conta para o outro ou não cabe nos planos do outro. Eu não posso ter vergonha de ser quem eu sou e das coisas que eu quero para manter qualquer situação ou relacionamento.”
“Fazer isso é muito mais do que uma questão pessoal de (falta de) autoestima ou amor próprio. Isso é machismo interno que precisa (!) ser identificado e combatido com urgência. E não adianta jogar a culpa no outro (que não está aqui eximido do machismo e deve, sim, fazer sua autoanálise). O outro também precisa se melhorar, certamente cada um tem sua parcela pra ser humanizada, mas isso é com ele, ele vai ter de passar pelos próprios processos e trabalhar pra isso.
A responsabilidade é nossa de reconhecer e reagir ao que não nos faz bem. Ninguém transforma a situação mudando o outro.
A responsabilidade do nosso bem-estar é nossa. Devemos agir amorosamente com a própria vida e avaliar muito criticamente as situações para não permitir que nos machuquem, para não nos submetermos a situações e a pessoas que nos reprimem nas nossas vontades mais genuínas, femininas e autênticas.”D.S. é uma mulher em busca de si mesma
quarta-feira, 25 de maio de 2016
Por que você se desculpa?
Hoje, como a gente se comunica mais por texto do que por voz, eu consigo apagar desculpas. Eu chamo de "desculpas deletadas", aquelas que no impulso eu digo, mas que por estar em frente à tela, elas ficam escancaradas ao meu olhar, me chamam para a reflexão, me fazem pensar se merecem ser ditas e me dão tempo de não deixar que elas existam. A tecnologia ajuda. Mas é preciso refletir sobre todas as situações em que elas aparecem.
Você já parou para pensar no sentido da palavra "desculpa"? Eu já, mas o "já", pra mim, é depois de 30 anos dizendo incessantemente, e sentindo verdadeiramente, que ela era necessária dentro das relações em que foi usada. A desculpa era culpa. A desculpa era pedir para ser aceita. A desculpa era vergonha. E tem a desculpa que é sempre introdução de frase, "desculpa, mas....". Essa aí é medo. Eu sempre usei todas elas, mas nunca foi um "vai que cola". Eu sempre realmente senti que elas precisavam ser ditas para eu conseguir seguir em frente naquela relação. Mas a desculpa não pode ser banalizada. Tem que existir um erro real para ela ser dita.
Acontece que eu sou pisciana, acontece que eu sou da paz, acontece que eu odeio ser odiada, acontece que eu não gosto de brigar, acontece que eu sou mulher e, o fato é, era só surgir algum homem para eu admirar, para eu me deixar dominar e para eu não conseguir perceber o quanto eu precisava parar de pedir desculpa pela minha existência.
Eu sempre me senti livre para pensar e ser o que quisesse. Mas eu sempre tive admiração pela figura masculina. A verdade é que eu sempre achei o meu pai e os meus irmãos o máximo! Para mim, dizer de quem eu era filha e irmã me dava poder. Até que eu fugi. Sai da minha cidade. Fugi para onde eles não tivessem história, fugi para onde ninguém os conhecesse. Fugi pra ser Marilia. Mas na busca pela Marilia eu conheci muitos homens e parei em outra figura masculina para admirar. Não me encontrei, achei, na verdade, outro ser pra ser devota.
E amigas, é na devoção que a tal da "desculpa" se apresenta no seu pior modelo. Você passa da paixão ao amor, e do amor ao abuso. E você aceita. Aceita se dar sem querer, aceita doar sem ter forças, aceita que é culpada quando não é, aceita que tem que se calar quando era para pedir ajuda, e acredita que tem que valorizar quando na verdade deveria fugir. E aí, ah, aí você já pediu muitas desculpas. E você suplica por um amor que você não precisa: o do outro, quando o que está em falta é o amor próprio.
Mas descobrir isso não é simples, não tem receita (até mesmo porque se você está num relacionamento assim provavelmente você não saiba ou não tenha certeza) e não é rápido. Um dos meus alertas foi quando eu ouvi: "você disse para ela que é minha mulher? Isso te ajudaria". Fugi pra ser Marilia e tinha virado "mulher de alguém".
Por isso que o conselho que dou para qualquer mulher é: tenha amigas. Pode ser uma: a mãe, a prima, a irmã, a vizinha, uma mina do trabalho que você acabou de conhecer. Podem ser muitas. Só confia em alguém e se joga. A união com outras mulheres chacoalha, acalenta, fortalece e salva. E aí você descobre que você não admira a figura masculina, você admira AQUELES homens e que isso é muito diferente (sim, existem homens incríveis).
E então você troca a desculpa por "obrigada", o do agradecimento, não o da escravidão.
Marília Taufic é lemense de nascimento, paulistana de coração, jornalista de profissão e feminista por necessidade e paixão. Em fase de auto descoberta
segunda-feira, 23 de maio de 2016
De como se manter inteira
Quando eu era criança, minha mãe sempre repetia que eu podia ser quem eu quisesse. Por muito tempo achei que era algo como, sei lá, ser astronauta, cientista, presidente. Era, mas não era. Até que um dia, já adolescente, ela repetiu isso de outra forma: você pode ser quem você quiser sem precisar que um homem te diga isso. E disse isso meio que fazendo um mea culpa da própria geração ou da própria vida.
Então, quando cheguei aos 30 e vinha praticando quem eu queria ser, o mundo bateu na minha porta e apresentou a seguinte “regra social”: se uma mulher chega aos 30, ou passa dos 30, ela pode ser quem ela quiser, desde que ela seja também uma mãe. É como se todo mundo definisse a condição da mulher como mulher a partir da maternidade. Mas eu não sou mãe e não existe nenhuma explicação para isso. Simplesmente não aconteceu. Talvez nunca aconteça.
Mas essa revelação mexe muito com as pessoas. Há um desconforto com a afirmação de que uma mulher não vai ser, não é ou não quer ser mãe. Porque a ideia de uma mulher plena no imaginário do senso comum é de que ela é, acima de tudo, mãe. E a plenitude está mesmo ligada à maternidade? Será? O que é plenitude, afinal? Quem a tem, afinal? Existe algum homem ou mulher que sejam plenos o tempo inteiro nesse mundo?
Então passei a experimentar formas para sobreviver, inteira, a tudo isso. Não existe uma fórmula, mas para continuar sendo a mulher que me tornei, e também a mulher que eu quero ser, é preciso ressignificar, o tempo todo, lá no fundo, minha condição de mulher. É como uma lembrança constante, um botão aceso, uma luz interna. É reconhecer que há incompletude em tudo na vida, e que isso, bem, isso é ok.
Aline Fonseca é jornalista, estudante de Letras, encantada com tantas histórias de mulheres incríveis e uma das responsáveis pelo blog
sábado, 14 de maio de 2016
Nunca desistir
Apesar dos meus 45 anos, sinto que a grande transformação de minha vida aconteceu há oito anos, quando fui pega de surpresa pelo falecimento de meu pai. Ele era uma pessoa muito presente na minha vida, a pessoa que me ensinou tudo o que sei, que sempre me ajudou a conquistar tudo o que alcancei.
Posso dizer que minha jornada de vida começou de verdade, mesmo, com a morte de meu pai. Foi quando passei a viver sozinha, com toda a responsabilidade na criação de minhas filhas, nas lutas do dia a dia, na administração da casa, e na continuidade de meus estudos. Muitas vezes me senti assustada, tive medo de que nada desse certo. Mas o tempo mostrou que a minha capacidade de vencer os desafios era enorme.
Criar os filhos sozinha é uma tarefa árdua para uma mulher. E é verdade quando dizem que nós, mulheres, somos multitarefas. E assim busco ensinar as minhas filhas a necessidade de manter viva a força e a capacidade de ser mulher, mesmo diante de um mundo cheio de preconceitos e violências contra nós.
O importante é nunca desistir.Gabriela Amaral é uma mãe atleta, estudante de Letras e também uma das produtoras desse blog
sábado, 7 de maio de 2016
A mulher, a menstruação e a feminilidade
O simples fato de menstruar me conecta com minha feminilidade. Isso me mostra que minha natureza é cíclica, lembrando-me de ser paciente e aceitar o ritmo da vida. A paciência é uma virtude que considero bastante feminina. Ter a oportunidade de entrar em contato com essa qualidade todos os meses contribui para que eu me mantenha alinhada aos valores de ser mulher. É quando tenho a oportunidade de estar mais introspectiva, apreendendo sobre mim mesma e de como eu me relaciono com o mundo, sendo mulher.
Entrar em contato com o meu sangue, que considero sagrado, gera uma série de quebras de paradigmas e tabus vigentes em nossa cultura. Essa cultura que cria normas de como uma mulher deve ser e se comportar, e que muitas vezes vai contra a verdadeira natureza feminina.
Honrar algo que muitas vezes é categorizado como repugnante, me traz forças para viver de uma maneira que valorize a mulher. Ser grata pelo sangue, que renova o meu corpo a cada ciclo, me faz ser grata por ser mulher.
Pâmela Teixeira Canfran
segunda-feira, 2 de maio de 2016
Gravidez indesejada por quem?
Aos 41 fui surpreendida grávida. Foi um relacionamento passageiro e sem intenção de progredir. Sendo assim, encontrava-me em uma situação complicada: solteira e futura mãe. Tive muitos medos, mas em nenhum momento pensei em abortar. Tive medo de que a criança crescesse sem o pai, medo da sociedade tratá-la com discriminação, medo de que eu fosse julgada como “irresponsável”.
De repente, vieram lembranças do meu passado, de quando minha mãe sempre reclamava de como a vida da mulher era uma vida difícil.
Foi uma gravidez não querida, mas, muito desejada. Sempre quis ser mãe ...mas não daquela forma. A vida da mulher é cheia de cobranças e, até então, eu tinha sido uma pessoa sempre “correta” diante do que a sociedade exigia para agora ser taxada de “irresponsável”.
O que vejo na vida de qualquer mulher, seja ela velha, nova, bem sucedida ou não, é que as cobranças sociais são grandes, mas as cobranças pessoais são ainda maiores. Mulheres ainda são consideradas bibelôs sociais, ainda há uma imposição para que falemos baixinho e não exponhamos intimidades físicas ou morais.
Os nove meses de gravidez foram cruéis e solitários ...mas hoje vejo que tudo que passei foi necessário para me tornar mais forte. Hoje ser mãe foi o melhor presente que ganhei.L.C.O.V
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