quinta-feira, 2 de junho de 2016

Do silêncio do passado ao grito do presente: não nos calaremos!



Eram 6h da manhã do dia 1º de janeiro de 2007, quando acordei no sofá da casa dos irmãos JJ. Estava de ressaca e as cenas da noite passada surgiam aos poucos como flashes difusos, sem muito sentido.

Eu tinha 15 anos.

Bagunça ao redor... todo aquele caos era resultado de uma festa de réveillon que fizemos na noite anterior com amigos. Meu vestido branco estava sujo. Isso me fez lembrar de um momento da madrugada, quando sentei na calçada em frente à casa dos irmãos JJ, sentindo o mundo e o estômago girar.

Em seguida, recordei cenas que até hoje figuram como as últimas memórias daquela noite: R., amigo que conheci na festa, se aproximando e me carregando até a sala dos irmãos JJ; ele sentou no sofá para cochilar e isso me permitiu deitar ali e acomodar a cabeça em seu colo. Adormecemos.

A casa estava vazia quando acordei. Me dirigi até a porta, mas antes que pudesse sair, K., uma amiga, entrou perguntando se eu estava bem. Ela parecia nervosa e assustada. Estava nitidamente preocupada comigo. Havia algo estranho no ar.

Respondi que estava bem, apesar da ressaca e perguntei se havia algo errado. “Você não se lembra de nada?”, ela questionou, com olhos arregalados, e iniciou um relato que me marcou para sempre.

K. me contou que R. acordou durante a madrugada e flagrou S., um amigo dos meus irmãos que eu conhecia desde a infância, no sofá. S. estava debruçado sobre o meu corpo, com as mãos sob o meu vestido, enquanto eu estava desacordada... R. imediatamente o afastou de mim e o arrastou para fora da casa, onde ocorreu uma briga.

Fiquei em choque após escutar tudo isso... Lembro da raiva, do asco. Me senti violada. Eu queria sair dali e foi o que fiz. Mas a pior das sensações ainda estava por vir: a culpa.

Me senti culpada por ter bebido demais naquela noite... senti que de alguma forma EU poderia ter evitado aquilo. Tive medo da possível reação dos meus pais e irmãos. Tive medo de ser julgada, de ser considerada uma mentirosa por eles... e me doeria mais ainda ouvir da minha família que eu mereci aquilo por ter bebido muito... era um risco. Me calei e jamais contei essa história.

Mas hoje eu grito:

A CULPA NÃO FOI MINHA! A CULPA NÃO É NOSSA!

A culpa não é da moça desacordada que sofreu abuso sexual! A culpa não é da adolescente de 16 anos que foi estuprada por 33 homens quando estava inconsciente e teve a imagem divulgada na internet! A culpa não é da moça que estava embriagada no réveillon e foi estuprada no estacionamento pelo segurança da festa! A culpa nunca é da vítima!

A culpa é da cultura do estupro, que está incrustrada em todos os níveis de nossa sociedade, do público ao privado, do cidadão ao Estado. O problema é a cultura do estupro, que impõe o sentimento de culpa e vergonha às vítimas, fazendo com que muitas vezes elas se calem, não denunciem.

Grito por todas as mulheres que já passaram por experiências como essas. Grito por mim e pela minha cura. Grito pela urgência de quebrar esse silêncio. Grito pelo fim da cultura do estupro!


Dedico esse texto a todas nós, mulheres. Dedico, também, à R., que não se omitiu diante do ocorrido e por quem nutro enorme apreço e gratidão.



V.A., uma mulher corajosa que, pela primeira vez, compartilhou essa história

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