quarta-feira, 22 de junho de 2016

A inteireza de uma mãe



Outro dia a Aline Fonseca escreveu aqui sobre não ser mãe e ser uma mulher inteira. Eu hoje escrevo sobre ser mãe e continuar a ser uma mulher inteira. Porque ser mãe é algo que chega como uma avalanche, no princípio parece que toma conta de tudo e demora um tempo para você catar os caquinhos de si e se reconstruir como um ser completo.

No livro novo do Murakami, "Sono", a protagonista não consegue mais dormir, passa 17 dias insone, mas, em vez de se sentir cansada, sente-se extremamente viva, pois passa a ter várias horas seguidas só para ela, as quais despende lendo sem interrupções, bebericando conhaque e comendo chocolates. E olha que ela nem trabalhava fora de casa. Me lembrei de outra protagonista, a Laura, de "As Horas", que finge ter afazeres fora de casa, para pedir à vizinha que fique com seu filho e ela possa pagar um hotel para ler durante a tarde. E olha que ela também não trabalhava fora de casa.

Me lembrei de mim mesma e de tantas outras mulheres contemporâneas, especialmente com filhos e muito trabalho, tudo junto, e de nossa avidez por horas só nossas. E esta quase urgência de gastá-las silenciosamente adentrando outros universos, por meio de livros, acho que se chama introspecção, uma necessidade de olhar para dentro, se reconhecer no outro e ser um pouco só espectadora do mundo. (Que pena que preciso dormir tanto).

Hoje eu amo ser mãe, mas o papel foi se tornando mais fácil para mim na medida em que não ocupava mais a minha vida inteira, na medida em que havia tempo e espaço para os meus outros eus. Quando os meninos eram pequenos demais, muitas vezes eu me perguntei onde estava a minha vida, quando as crianças exigiam atenção quase 100% do tempo.

À medida que as outras faces de mim puderam de novo fluir mais livremente - a parte que lê, a que escreve, a que gosta de filmes, música, interagir com os amigos, namorar, ter tempo para o cuidado de si, e não só para o cuidado com os outros -, à medida que fui de novo me encontrando comigo mesma, fui gostando mais de ser mãe. Fui sentindo com mais força o prazer da troca, da cumplicidade, o prazer de sentir o maior amor do mundo. Em síntese, eu (quase sempre) curto ser mãe. Mas gosto mesmo é de ser uma pessoa inteira.


Lara Haje, uma mãe e mulher inteira

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