sexta-feira, 3 de junho de 2016

Uma mulher invisível?



Diante de tantas notícias tristes de violência contra a mulher – de insultos a estupro coletivo, é impossível não olhar pra si mesma, para os outros, ao redor, para quem mora na sua casa, para seus colegas de trabalho, com os mesmos olhos. Cada comentário, gesto e olhar traduzem preconceitos, histórias, comportamentos e até achismos.

Depois de olhar o entorno, olhei pra dentro, olhei pra Fernanda. O que, nesses 32 anos de vida, ouvi, senti, me envorgonhei ou me orgulhei. E pensei muito sobre o que mostro para os outros, o que deixo que vejam. Tá, eu deixo muito pouco.

Quem me conhece sabe que sou uma pessoa pouco vaidosa. Não vou dizer sem vaidade, porque acredito pouco no exterior, na plástica, na matéria. Acredito mesmo no que está dentro (e lógico, na transformação do universo, NÉAM?). a vaidade – sem teorismos minha gente - tem muito a ver com o que se esconde lá no fundo – de traumas à felicidade.

Mas aí me perguntei: por que sou assim? Tenho mãe, madrasta, tia, avós, irmãs muito vaidosas. E cheguei a uma conclusão simples: não gosto de chamar atenção e nunca gostei. Isso quer dizer que, pra mim, eu usar um colar lindo, grande, é chamar atenção. Eu pintar meu cabelo de rosa, é chamar atenção. Eu usar uma saia mais curta, é chamar atenção. Você deve estar pensando: você jura mesmo? Que bobagem. Pode ser, mas isso foi uma forma que encontrei de me proteger.

Sim, me proteger de abusos. Oi? Sim. Evitar e evitar. De ser olhada no ponto de ônibus e ser chamada de gostosa. De sentar no banco do metrô e olharem para as minhas pernas, de piadinhas de corredor no trabalho, da transparência da roupa ser sinônimo de puta, do meu decote dizer “me coma”, da calça branca mostrar muito a minha bunda.

Isso sempre foi comigo. Sempre achei demais mulheres que não estavam nem aí pra isso. Talvez, por isso, sempre fui rodeada de mulheres que mostram e querem ser vistas. E tive momentos em que soltei meus cabelos, usei batom vermelho, saltão, uma saia bem curta, porque fui encorajada por elas e me senti muito bem assim, obrigada. Mas, sem elas do lado pra me bancar, nunca.

Sempre foi eu, nunca os outros. Tudo isso me fez lidar de um jeito diferente sobre a tal da vaidade, o de estar linda – aqui leia-se linda como o mundo acha que a beleza deve ser.

E a verdade é que acho péssimo me ver assim. Me ver “derrotada” pelos olhos dos outros. Não é mimimi – desse tipo não sou. É porque, sim, abusos acontecem o tempo todo. E me dei conta, lendo todas essas histórias, ouvindo amigas, conhecendo o dia a dia – triste, muito triste - de tantas manas. Desde criança, ouvimos “como ela cresceu e está linda”, “linda desse jeito deve estar cheio de namoradinhos”, fora os “oh lá em casa”, “gostosa” e por aí vai.

Eu só queria me proteger. Só queria evitar lidar com esses bla blás” e, por que não dizer, de abusos, de um estupro. Hoje ainda sou assim, só que mais corajosa. Corajosa porque sei que tem mina pra caralho junto comigo, dizendo NÃO, muitos NÃOs.

O que espero daqui pra frente? Me mostrar. E isso só pode acontecer porque as minas estão abrindo meus caminhos. E ainda é um longo caminho.

Fernanda Fontes é mineira, mas mora em São Paulo desde bebê. A alma fala uai, mas a armadura é paulistana. Formada em jornalismo, corinthiana e feminista desde criancinha.

Um comentário:

  1. sempre fui assim tb Fernanda... mas mto mais por preguiça de me encaixar em tudo que nos eh exigido no papel de mulher...

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