quarta-feira, 1 de junho de 2016

Você é louca!?



“Você é louca!” ou “Isso é coisa da sua cabeça!”. Essas frases são muito poderosas quando ditas por alguém que você ama. Mas isso também tem nome, se chama “gaslighting” e significa “fazer alguém enlouquecer”, desmentir as memórias do outro, distorcer a história e uma forma de culpabilizar a vítima. E de tanto ouvir isso, a essa altura, você realmente está perdendo a cabeça. Foi assim com D.S, que preferiu não se identificar para contar essa história.

“No começo, eu achei que era insegurança, que o problema realmente estava comigo, que lá dentro de mim tinha algo com o qual eu não sabia lidar. E eu me senti assim por muito tempo. E era horrível”, conta.

Ela esteve em um relacionamento em que o companheiro, a um certo ponto, não apenas admirava mulheres bonitas que passavam por ele, mas ficava completamente absorto, inebriado por longos minutos, a ponto de não se importar com mais nada, ainda que a namorada estivesse ao lado.

“Era uma dor profunda. E quando eu comentava e criticava aquela postura, a resposta era só que aquilo era coisa da minha cabeça”, diz. “Cheguei a perguntar para amigas e amigos sobre aquilo, se viam a mesma coisa que eu, se eu realmente estava ficando louca. Uma amiga me contou que já havia percebido aquele comportamento.”

Eventualmente, o relacionamento terminou, mas D.S. buscou entender tudo aquilo. Foi quando se deparou com um texto sobre o gaslighting. “Foi quando eu percebi que não, não era coisa da minha cabeça. Era não apenas um desrespeito, mas era uma violência emocional contra mim. Aquilo era uma violência e é por isso que eu ficava tão afetada. Porque era uma violência”, afirma.

Nessa busca de si mesma e pelo que passou, D.S. só tem uma certeza:

“Ninguém pode me dizer quem eu sou e o que eu quero. Só eu sei se o que eu quero é bom ou adequado para mim. Assim como não posso dizer o que é bom ou adequado para a vida de qualquer pessoa. Portanto, se os quereres são incompatíveis, qualquer mulher precisa identificar o que está acontecendo e se respeitar – mesmo que isso lhe cause dor a princípio. Respeitar-se como mulher também requer viver a dor de reconhecer uma escolha errada e sair de um relacionamento em que a sua vontade não conta para o outro ou não cabe nos planos do outro. Eu não posso ter vergonha de ser quem eu sou e das coisas que eu quero para manter qualquer situação ou relacionamento.”

“Fazer isso é muito mais do que uma questão pessoal de (falta de) autoestima ou amor próprio. Isso é machismo interno que precisa (!) ser identificado e combatido com urgência. E não adianta jogar a culpa no outro (que não está aqui eximido do machismo e deve, sim, fazer sua autoanálise). O outro também precisa se melhorar, certamente cada um tem sua parcela pra ser humanizada, mas isso é com ele, ele vai ter de passar pelos próprios processos e trabalhar pra isso.

A responsa­­­bilidade é nossa de reconhecer e reagir ao que não nos faz bem. Ninguém transforma a situação mudando o outro.

A responsabilidade do nosso bem-estar é nossa. Devemos agir amorosamente com a própria vida e avaliar muito criticamente as situações para não permitir que nos machuquem, para não nos submetermos a situações e a pessoas que nos reprimem nas nossas vontades mais genuínas, femininas e autênticas.”

D.S. é uma mulher em busca de si mesma

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