Ter filho é maravilhoso! É um amor tão grande, mas tão grande, que parece que vai soterrar a gente. A maternidade tem sido a experiência mais feliz, intensa, divertida, exigente, cansativa e transformadora da minha vida. Agora, ser mãe, nos dias de hoje no Brasil, é muito chato. A mãe se sente julgada e condenada por todos o tempo inteiro. Eu me sinto assim, pelo menos.
As pessoas talvez não percebam, mas a mãe está fazendo o melhor que pode dentro de suas restritas possibilidades. A mãe está sozinha, sem apoio, sem valorização. Ela está num apartamento da Asa Sul com um bebê recém-nascido nos braços, cheia de medos e dúvidas, enquanto todos tocam suas vidas normalmente, como se um cataclisma não tivesse acontecido (mas aconteceu!).
A mãe está sem dormir há vários meses. Em alguns casos, há anos. Ela perdeu suas referências internas, está sem trabalhar durante os meses da licença, sai pouco de casa. Ela quase não tem vida social, até porque os lugares onde a vida social acontece não estão preparados para receber mães com bebês.
A vida que a mãe tinha antes desapareceu de uma vez só. O francês, a yoga, a análise –foi tudo para o brejo. Esse processo é de luto, minha gente. Vamos deixar a mãe viver isso em paz. A mãe está revivendo e reelaborando suas próprias experiências infantis ao cuidar do bebê. Sim, a gente passa a ver nossos pais com outros olhos depois que vira mãe. Mas isso não é necessariamente uma coisa boa. A mãe ainda não se descobriu por completo na nova vida. Ela não sabe como a nova vida vai ser.
Nesse contexto, todos os conselhos, por mais bem intencionados que sejam, atrapalham, porque geram mais dúvidas na cabeça já povoada de inseguranças, medos e perguntas da mãe. Vamos parar de atrapalhar a maternagem alheia. O processo em si já é muito difícil, não precisa atrapalhar não.
Querida titia viciada em coca zero, por favor, não visite o sobrinho dois anos com uma latinha na mão, principalmente quando você sabe que a mãe está engajada num projeto de alimentação saudável, livre de industrializados, nessa droga de mundo que nos empurra lixo disfarçado de comida o tempo inteiro.
Querida prima do papai, tia do papai, parente distante, não olhe para a mãe com cara de espanto ao descobrir que o bebê de um ano e nove meses ainda mama no peito. Caso vocês não saibam, a Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação pelo menos até os dois anos.
Querido Planeta Terra, a amamentação não é assunto seu! Não é assunto de ninguém, só da mãe e do bebê. Favor fazer cara de paisagem, olhar para o outro lado e deixar a dupla mãe/bebê em paz.
Querida vovó, não diga que chupeta não faz mal e que mamadeira não atrapalha a amamentação. Atrapalha sim! E você não entende nada desse assunto, já que desmamou a mãe quando ela tinha apenas um mês de vida.
Cara diarista, não diga que o pescoço do recém-nascido vai ficar torto por causa do bebê conforto. Não vai. Pare de estressar ainda mais a pobre mãe.
Prezados médicos, enfermeiros, odontopediatras e outros profissionais da área de saúde, vamos parar de tratar a mãe como um ser digno de pena. Bora descer desse pedestal aí! E, de uma vez por todas: parem de mentir para a mãe. Parem agora.
Apenas por hoje, pessoal, vamos facilitar a vida da mãe, que está cortando um dobrado para dar conta do bebê e de si mesma. Só isso já seria uma grande coisa.
Agora, sonhando com um mundo ideal, podíamos todos reconhecer que a mãe, ao maternar, exerce uma atividade relevante socialmente, de importância para toda a sociedade. A mãe está empenhada na árdua tarefa de criar um ser empático, amoroso, ético, responsável. A mãe cria uma pessoa que vai viver em sociedade e agir sobre ela, sobre o mundo. Que trabalho pode ser mais importante do que esse? Que tal passarmos a valorizar e apoiar isso, inclusive com recursos financeiros, como a licença maternidade de dois anos, por exemplo? É pedir demais?Juliana Garcia, mãe de Mateus, de dois anos e três meses

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