quarta-feira, 25 de maio de 2016

Por que você se desculpa?



Hoje, como a gente se comunica mais por texto do que por voz, eu consigo apagar desculpas. Eu chamo de "desculpas deletadas", aquelas que no impulso eu digo, mas que por estar em frente à tela, elas ficam escancaradas ao meu olhar, me chamam para a reflexão, me fazem pensar se merecem ser ditas e me dão tempo de não deixar que elas existam. A tecnologia ajuda. Mas é preciso refletir sobre todas as situações em que elas aparecem.

Você já parou para pensar no sentido da palavra "desculpa"? Eu já, mas o "já", pra mim, é depois de 30 anos dizendo incessantemente, e sentindo verdadeiramente, que ela era necessária dentro das relações em que foi usada. A desculpa era culpa. A desculpa era pedir para ser aceita. A desculpa era vergonha. E tem a desculpa que é sempre introdução de frase, "desculpa, mas....". Essa aí é medo. Eu sempre usei todas elas, mas nunca foi um "vai que cola". Eu sempre realmente senti que elas precisavam ser ditas para eu conseguir seguir em frente naquela relação. Mas a desculpa não pode ser banalizada. Tem que existir um erro real para ela ser dita.

Acontece que eu sou pisciana, acontece que eu sou da paz, acontece que eu odeio ser odiada, acontece que eu não gosto de brigar, acontece que eu sou mulher e, o fato é, era só surgir algum homem para eu admirar, para eu me deixar dominar e para eu não conseguir perceber o quanto eu precisava parar de pedir desculpa pela minha existência.

Eu sempre me senti livre para pensar e ser o que quisesse. Mas eu sempre tive admiração pela figura masculina. A verdade é que eu sempre achei o meu pai e os meus irmãos o máximo! Para mim, dizer de quem eu era filha e irmã me dava poder. Até que eu fugi. Sai da minha cidade. Fugi para onde eles não tivessem história, fugi para onde ninguém os conhecesse. Fugi pra ser Marilia. Mas na busca pela Marilia eu conheci muitos homens e parei em outra figura masculina para admirar. Não me encontrei, achei, na verdade, outro ser pra ser devota.

E amigas, é na devoção que a tal da "desculpa" se apresenta no seu pior modelo. Você passa da paixão ao amor, e do amor ao abuso. E você aceita. Aceita se dar sem querer, aceita doar sem ter forças, aceita que é culpada quando não é, aceita que tem que se calar quando era para pedir ajuda, e acredita que tem que valorizar quando na verdade deveria fugir. E aí, ah, aí você já pediu muitas desculpas. E você suplica por um amor que você não precisa: o do outro, quando o que está em falta é o amor próprio.

Mas descobrir isso não é simples, não tem receita (até mesmo porque se você está num relacionamento assim provavelmente você não saiba ou não tenha certeza) e não é rápido. Um dos meus alertas foi quando eu ouvi: "você disse para ela que é minha mulher? Isso te ajudaria". Fugi pra ser Marilia e tinha virado "mulher de alguém".

Por isso que o conselho que dou para qualquer mulher é: tenha amigas. Pode ser uma: a mãe, a prima, a irmã, a vizinha, uma mina do trabalho que você acabou de conhecer. Podem ser muitas. Só confia em alguém e se joga. A união com outras mulheres chacoalha, acalenta, fortalece e salva. E aí você descobre que você não admira a figura masculina, você admira AQUELES homens e que isso é muito diferente (sim, existem homens incríveis).

E então você troca a desculpa por "obrigada", o do agradecimento, não o da escravidão.


Marília Taufic é lemense de nascimento, paulistana de coração, jornalista de profissão e feminista por necessidade e paixão. Em fase de auto descoberta

segunda-feira, 23 de maio de 2016

De como se manter inteira



Quando eu era criança, minha mãe sempre repetia que eu podia ser quem eu quisesse. Por muito tempo achei que era algo como, sei lá, ser astronauta, cientista, presidente. Era, mas não era. Até que um dia, já adolescente, ela repetiu isso de outra forma: você pode ser quem você quiser sem precisar que um homem te diga isso. E disse isso meio que fazendo um mea culpa da própria geração ou da própria vida.

Então, quando cheguei aos 30 e vinha praticando quem eu queria ser, o mundo bateu na minha porta e apresentou a seguinte “regra social”: se uma mulher chega aos 30, ou passa dos 30, ela pode ser quem ela quiser, desde que ela seja também uma mãe. É como se todo mundo definisse a condição da mulher como mulher a partir da maternidade. Mas eu não sou mãe e não existe nenhuma explicação para isso. Simplesmente não aconteceu. Talvez nunca aconteça.

Mas essa revelação mexe muito com as pessoas. Há um desconforto com a afirmação de que uma mulher não vai ser, não é ou não quer ser mãe. Porque a ideia de uma mulher plena no imaginário do senso comum é de que ela é, acima de tudo, mãe. E a plenitude está mesmo ligada à maternidade? Será? O que é plenitude, afinal? Quem a tem, afinal? Existe algum homem ou mulher que sejam plenos o tempo inteiro nesse mundo?

Então passei a experimentar formas para sobreviver, inteira, a tudo isso. Não existe uma fórmula, mas para continuar sendo a mulher que me tornei, e também a mulher que eu quero ser, é preciso ressignificar, o tempo todo, lá no fundo, minha condição de mulher. É como uma lembrança constante, um botão aceso, uma luz interna. É reconhecer que há incompletude em tudo na vida, e que isso, bem, isso é ok.




Aline Fonseca é jornalista, estudante de Letras, encantada com tantas histórias de mulheres incríveis e uma das responsáveis pelo blog

sábado, 14 de maio de 2016

Nunca desistir



Apesar dos meus 45 anos, sinto que a grande transformação de minha vida aconteceu há oito anos, quando fui pega de surpresa pelo falecimento de meu pai. Ele era uma pessoa muito presente na minha vida, a pessoa que me ensinou tudo o que sei, que sempre me ajudou a conquistar tudo o que alcancei.

Posso dizer que minha jornada de vida começou de verdade, mesmo, com a morte de meu pai. Foi quando passei a viver sozinha, com toda a responsabilidade na criação de minhas filhas, nas lutas do dia a dia, na administração da casa, e na continuidade de meus estudos. Muitas vezes me senti assustada, tive medo de que nada desse certo. Mas o tempo mostrou que a minha capacidade de vencer os desafios era enorme.

Criar os filhos sozinha é uma tarefa árdua para uma mulher. E é verdade quando dizem que nós, mulheres, somos multitarefas. E assim busco ensinar as minhas filhas a necessidade de manter viva a força e a capacidade de ser mulher, mesmo diante de um mundo cheio de preconceitos e violências contra nós.

O importante é nunca desistir.

Gabriela Amaral é uma mãe atleta, estudante de Letras e também uma das produtoras desse blog

sábado, 7 de maio de 2016

A mulher, a menstruação e a feminilidade



O simples fato de menstruar me conecta com minha feminilidade. Isso me mostra que minha natureza é cíclica, lembrando-me de ser paciente e aceitar o ritmo da vida. A paciência é uma virtude que considero bastante feminina. Ter a oportunidade de entrar em contato com essa qualidade todos os meses contribui para que eu me mantenha alinhada aos valores de ser mulher. É quando tenho a oportunidade de estar mais introspectiva, apreendendo sobre mim mesma e de como eu me relaciono com o mundo, sendo mulher.

Entrar em contato com o meu sangue, que considero sagrado, gera uma série de quebras de paradigmas e tabus vigentes em nossa cultura. Essa cultura que cria normas de como uma mulher deve ser e se comportar, e que muitas vezes vai contra a verdadeira natureza feminina.

Honrar algo que muitas vezes é categorizado como repugnante, me traz forças para viver de uma maneira que valorize a mulher. Ser grata pelo sangue, que renova o meu corpo a cada ciclo, me faz ser grata por ser mulher.

Pâmela Teixeira Canfran

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Gravidez indesejada por quem?



Aos 41 fui surpreendida grávida. Foi um relacionamento passageiro e sem intenção de progredir. Sendo assim, encontrava-me em uma situação complicada: solteira e futura mãe. Tive muitos medos, mas em nenhum momento pensei em abortar. Tive medo de que a criança crescesse sem o pai, medo da sociedade tratá-la com discriminação, medo de que eu fosse julgada como “irresponsável”.

De repente, vieram lembranças do meu passado, de quando minha mãe sempre reclamava de como a vida da mulher era uma vida difícil.

Foi uma gravidez não querida, mas, muito desejada. Sempre quis ser mãe ...mas não daquela forma. A vida da mulher é cheia de cobranças e, até então, eu tinha sido uma pessoa sempre “correta” diante do que a sociedade exigia para agora ser taxada de “irresponsável”.

O que vejo na vida de qualquer mulher, seja ela velha, nova, bem sucedida ou não, é que as cobranças sociais são grandes, mas as cobranças pessoais são ainda maiores. Mulheres ainda são consideradas bibelôs sociais, ainda há uma imposição para que falemos baixinho e não exponhamos intimidades físicas ou morais.

Os nove meses de gravidez foram cruéis e solitários ...mas hoje vejo que tudo que passei foi necessário para me tornar mais forte. Hoje ser mãe foi o melhor presente que ganhei.

L.C.O.V