Hoje, como a gente se comunica mais por texto do que por voz, eu consigo apagar desculpas. Eu chamo de "desculpas deletadas", aquelas que no impulso eu digo, mas que por estar em frente à tela, elas ficam escancaradas ao meu olhar, me chamam para a reflexão, me fazem pensar se merecem ser ditas e me dão tempo de não deixar que elas existam. A tecnologia ajuda. Mas é preciso refletir sobre todas as situações em que elas aparecem.
Você já parou para pensar no sentido da palavra "desculpa"? Eu já, mas o "já", pra mim, é depois de 30 anos dizendo incessantemente, e sentindo verdadeiramente, que ela era necessária dentro das relações em que foi usada. A desculpa era culpa. A desculpa era pedir para ser aceita. A desculpa era vergonha. E tem a desculpa que é sempre introdução de frase, "desculpa, mas....". Essa aí é medo. Eu sempre usei todas elas, mas nunca foi um "vai que cola". Eu sempre realmente senti que elas precisavam ser ditas para eu conseguir seguir em frente naquela relação. Mas a desculpa não pode ser banalizada. Tem que existir um erro real para ela ser dita.
Acontece que eu sou pisciana, acontece que eu sou da paz, acontece que eu odeio ser odiada, acontece que eu não gosto de brigar, acontece que eu sou mulher e, o fato é, era só surgir algum homem para eu admirar, para eu me deixar dominar e para eu não conseguir perceber o quanto eu precisava parar de pedir desculpa pela minha existência.
Eu sempre me senti livre para pensar e ser o que quisesse. Mas eu sempre tive admiração pela figura masculina. A verdade é que eu sempre achei o meu pai e os meus irmãos o máximo! Para mim, dizer de quem eu era filha e irmã me dava poder. Até que eu fugi. Sai da minha cidade. Fugi para onde eles não tivessem história, fugi para onde ninguém os conhecesse. Fugi pra ser Marilia. Mas na busca pela Marilia eu conheci muitos homens e parei em outra figura masculina para admirar. Não me encontrei, achei, na verdade, outro ser pra ser devota.
E amigas, é na devoção que a tal da "desculpa" se apresenta no seu pior modelo. Você passa da paixão ao amor, e do amor ao abuso. E você aceita. Aceita se dar sem querer, aceita doar sem ter forças, aceita que é culpada quando não é, aceita que tem que se calar quando era para pedir ajuda, e acredita que tem que valorizar quando na verdade deveria fugir. E aí, ah, aí você já pediu muitas desculpas. E você suplica por um amor que você não precisa: o do outro, quando o que está em falta é o amor próprio.
Mas descobrir isso não é simples, não tem receita (até mesmo porque se você está num relacionamento assim provavelmente você não saiba ou não tenha certeza) e não é rápido. Um dos meus alertas foi quando eu ouvi: "você disse para ela que é minha mulher? Isso te ajudaria". Fugi pra ser Marilia e tinha virado "mulher de alguém".
Por isso que o conselho que dou para qualquer mulher é: tenha amigas. Pode ser uma: a mãe, a prima, a irmã, a vizinha, uma mina do trabalho que você acabou de conhecer. Podem ser muitas. Só confia em alguém e se joga. A união com outras mulheres chacoalha, acalenta, fortalece e salva. E aí você descobre que você não admira a figura masculina, você admira AQUELES homens e que isso é muito diferente (sim, existem homens incríveis).
E então você troca a desculpa por "obrigada", o do agradecimento, não o da escravidão.
Marília Taufic é lemense de nascimento, paulistana de coração, jornalista de profissão e feminista por necessidade e paixão. Em fase de auto descoberta




