Sou a mais velha de quatro irmãos. Tivemos uma infância muito difícil, com poucos recursos ou nenhum. Minha mãe era dona de casa e meu pai sempre trabalhou na construção civil, o que significa que em certos momentos de nossas vidas ele esteve desempregado e, nesse ramo, quanto mais velho se vai ficando, mais difícil é voltar ao mercado de trabalho. Então, ainda muito cedo na vida, aprendi que "para o mundo, as pessoas valem o que têm". E nós não tínhamos muita coisa.
Lembro-me bem de momentos em que um dos meus irmãos, para ir à escola, tinha de esperar o outro chegar para usar a mesma sandália. E essa era só umas das várias situações que vivemos devido à vida precária e cheia de limitações que levávamos.
Aos dez anos, eu já sabia o que era ser dona de casa, cuidava dos meus três irmãos mais novos e já tinha responsabilidades de uma pessoa adulta. Aos doze descobrir da pior forma possível que era uma filha adotada e senti que tudo o que havia vivido até ali tinha sido uma mentira. Do dia para a noite, perdi minha identidade, meu chão. Não sabia mais quem eu era e junto com isso vieram as mágoas, decepções, traumas, medos, incertezas, autoestima baixa, complexo de inferioridade, insegurança, entre outras coisas que faziam com que eu tivesse pena de mim mesma e procurasse sempre um culpado para tudo o que desse errado na minha vida. Magoei pessoas, decepcionei outras tantas e fui ingrata com quem não merecia.
Comecei a namorar muito cedo, fui mãe aos 16 anos, saí de casa contra a vontade dos meus pais que, apesar das decepções que lhes causei, sempre me apoiaram, e fui morar com o pai da minha filha. Essa, aliás, foi uma péssima escolha, porque, literalmente, comi "o pão que o diabo amassou". Claro que também tive a minha parcela de culpa, mas era muito imatura e cheia de certezas "incertas". Sofri muito. Quebrei muito a cara, mas aprendi, a duras penas, aprendi.
Tomei a decisão de me separar quando minha filha tinha 10 anos. Ela sofreu muito, principalmente com o desprezo da parte do pai para com ela e ficaram mágoas, traumas e decepções dela em relação ao pai. Foram tempos difíceis, voltei para a casa dos meus pais e tivemos muitos contra tempos.
Dois anos depois, conheci aquele que seria meu marido e pai dos meus dois filhos, o nosso namoro foi algo mágico, mas também vieram alguns momentos de incertezas e preocupações. Após o nascimento do nosso filho do meio, decidimos nos casar. E meu marido se tornou a referência de pai para a minha primeira filha, tanto que ele a adotou e é presente, dedicado e amoroso, meu melhor amigo e companheiro, mesmo depois de dez anos!
Com tudo isso que contei, aprendi que, independente da situação que esteja vivendo, precisamos ser gratos e perseverantes, procurar ser melhores a cada dia, mudar e fazer valer a nossa história, porque acredito que não estamos aqui por acaso.
Às vezes, penso que gostaria que alguém, em algum momento da minha vida, tivesse me dado uns "tapas" na cara, para que eu pudesse acordar, parar de me fazer de vítima e de procurar culpados para justificar meus erros e falta de atitude. Mas a vida me ensinou. Eu ainda não sou quem gostaria de ser, mas também já não sou quem eu era. É uma grande busca, mas também um grande encontro.
Luciana Oliveira, que demorou a parar de se achar vítima do mundo e ver que a mudança de sua vida só dependia dela

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