quinta-feira, 2 de junho de 2016

Só por hoje, não atrapalhe uma mãe



Ter filho é maravilhoso! É um amor tão grande, mas tão grande, que parece que vai soterrar a gente. A maternidade tem sido a experiência mais feliz, intensa, divertida, exigente, cansativa e transformadora da minha vida. Agora, ser mãe, nos dias de hoje no Brasil, é muito chato. A mãe se sente julgada e condenada por todos o tempo inteiro. Eu me sinto assim, pelo menos.

As pessoas talvez não percebam, mas a mãe está fazendo o melhor que pode dentro de suas restritas possibilidades. A mãe está sozinha, sem apoio, sem valorização. Ela está num apartamento da Asa Sul com um bebê recém-nascido nos braços, cheia de medos e dúvidas, enquanto todos tocam suas vidas normalmente, como se um cataclisma não tivesse acontecido (mas aconteceu!).

A mãe está sem dormir há vários meses. Em alguns casos, há anos. Ela perdeu suas referências internas, está sem trabalhar durante os meses da licença, sai pouco de casa. Ela quase não tem vida social, até porque os lugares onde a vida social acontece não estão preparados para receber mães com bebês.

A vida que a mãe tinha antes desapareceu de uma vez só. O francês, a yoga, a análise –foi tudo para o brejo. Esse processo é de luto, minha gente. Vamos deixar a mãe viver isso em paz. A mãe está revivendo e reelaborando suas próprias experiências infantis ao cuidar do bebê. Sim, a gente passa a ver nossos pais com outros olhos depois que vira mãe. Mas isso não é necessariamente uma coisa boa. A mãe ainda não se descobriu por completo na nova vida. Ela não sabe como a nova vida vai ser.

Nesse contexto, todos os conselhos, por mais bem intencionados que sejam, atrapalham, porque geram mais dúvidas na cabeça já povoada de inseguranças, medos e perguntas da mãe. Vamos parar de atrapalhar a maternagem alheia. O processo em si já é muito difícil, não precisa atrapalhar não.

Querida titia viciada em coca zero, por favor, não visite o sobrinho dois anos com uma latinha na mão, principalmente quando você sabe que a mãe está engajada num projeto de alimentação saudável, livre de industrializados, nessa droga de mundo que nos empurra lixo disfarçado de comida o tempo inteiro.

Querida prima do papai, tia do papai, parente distante, não olhe para a mãe com cara de espanto ao descobrir que o bebê de um ano e nove meses ainda mama no peito. Caso vocês não saibam, a Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação pelo menos até os dois anos.

Querido Planeta Terra, a amamentação não é assunto seu! Não é assunto de ninguém, só da mãe e do bebê. Favor fazer cara de paisagem, olhar para o outro lado e deixar a dupla mãe/bebê em paz.

Querida vovó, não diga que chupeta não faz mal e que mamadeira não atrapalha a amamentação. Atrapalha sim! E você não entende nada desse assunto, já que desmamou a mãe quando ela tinha apenas um mês de vida.

Cara diarista, não diga que o pescoço do recém-nascido vai ficar torto por causa do bebê conforto. Não vai. Pare de estressar ainda mais a pobre mãe.

Prezados médicos, enfermeiros, odontopediatras e outros profissionais da área de saúde, vamos parar de tratar a mãe como um ser digno de pena. Bora descer desse pedestal aí! E, de uma vez por todas: parem de mentir para a mãe. Parem agora.

Apenas por hoje, pessoal, vamos facilitar a vida da mãe, que está cortando um dobrado para dar conta do bebê e de si mesma. Só isso já seria uma grande coisa.

Agora, sonhando com um mundo ideal, podíamos todos reconhecer que a mãe, ao maternar, exerce uma atividade relevante socialmente, de importância para toda a sociedade. A mãe está empenhada na árdua tarefa de criar um ser empático, amoroso, ético, responsável. A mãe cria uma pessoa que vai viver em sociedade e agir sobre ela, sobre o mundo. Que trabalho pode ser mais importante do que esse? Que tal passarmos a valorizar e apoiar isso, inclusive com recursos financeiros, como a licença maternidade de dois anos, por exemplo? É pedir demais?

Juliana Garcia, mãe de Mateus, de dois anos e três meses

Do silêncio do passado ao grito do presente: não nos calaremos!



Eram 6h da manhã do dia 1º de janeiro de 2007, quando acordei no sofá da casa dos irmãos JJ. Estava de ressaca e as cenas da noite passada surgiam aos poucos como flashes difusos, sem muito sentido.

Eu tinha 15 anos.

Bagunça ao redor... todo aquele caos era resultado de uma festa de réveillon que fizemos na noite anterior com amigos. Meu vestido branco estava sujo. Isso me fez lembrar de um momento da madrugada, quando sentei na calçada em frente à casa dos irmãos JJ, sentindo o mundo e o estômago girar.

Em seguida, recordei cenas que até hoje figuram como as últimas memórias daquela noite: R., amigo que conheci na festa, se aproximando e me carregando até a sala dos irmãos JJ; ele sentou no sofá para cochilar e isso me permitiu deitar ali e acomodar a cabeça em seu colo. Adormecemos.

A casa estava vazia quando acordei. Me dirigi até a porta, mas antes que pudesse sair, K., uma amiga, entrou perguntando se eu estava bem. Ela parecia nervosa e assustada. Estava nitidamente preocupada comigo. Havia algo estranho no ar.

Respondi que estava bem, apesar da ressaca e perguntei se havia algo errado. “Você não se lembra de nada?”, ela questionou, com olhos arregalados, e iniciou um relato que me marcou para sempre.

K. me contou que R. acordou durante a madrugada e flagrou S., um amigo dos meus irmãos que eu conhecia desde a infância, no sofá. S. estava debruçado sobre o meu corpo, com as mãos sob o meu vestido, enquanto eu estava desacordada... R. imediatamente o afastou de mim e o arrastou para fora da casa, onde ocorreu uma briga.

Fiquei em choque após escutar tudo isso... Lembro da raiva, do asco. Me senti violada. Eu queria sair dali e foi o que fiz. Mas a pior das sensações ainda estava por vir: a culpa.

Me senti culpada por ter bebido demais naquela noite... senti que de alguma forma EU poderia ter evitado aquilo. Tive medo da possível reação dos meus pais e irmãos. Tive medo de ser julgada, de ser considerada uma mentirosa por eles... e me doeria mais ainda ouvir da minha família que eu mereci aquilo por ter bebido muito... era um risco. Me calei e jamais contei essa história.

Mas hoje eu grito:

A CULPA NÃO FOI MINHA! A CULPA NÃO É NOSSA!

A culpa não é da moça desacordada que sofreu abuso sexual! A culpa não é da adolescente de 16 anos que foi estuprada por 33 homens quando estava inconsciente e teve a imagem divulgada na internet! A culpa não é da moça que estava embriagada no réveillon e foi estuprada no estacionamento pelo segurança da festa! A culpa nunca é da vítima!

A culpa é da cultura do estupro, que está incrustrada em todos os níveis de nossa sociedade, do público ao privado, do cidadão ao Estado. O problema é a cultura do estupro, que impõe o sentimento de culpa e vergonha às vítimas, fazendo com que muitas vezes elas se calem, não denunciem.

Grito por todas as mulheres que já passaram por experiências como essas. Grito por mim e pela minha cura. Grito pela urgência de quebrar esse silêncio. Grito pelo fim da cultura do estupro!


Dedico esse texto a todas nós, mulheres. Dedico, também, à R., que não se omitiu diante do ocorrido e por quem nutro enorme apreço e gratidão.



V.A., uma mulher corajosa que, pela primeira vez, compartilhou essa história

quarta-feira, 1 de junho de 2016

A arte de inspirar e de se inspirar



Essa é a história de Gina Vieira, professora da rede pública de ensino no Distrito Federal e responsável pelo projeto "Mulheres Inspiradoras", que tem como objetivo apresentar personalidades femininas a estudantes do ensino médio, motivando-os a encontrarem suas próprias mulheres inspiradoras e, dessa forma, incentivar o respeito à igualdade de gêneros.



Mas esse projeto também mudou Gina de uma forma genuína, a forma como ela mesmo se via. Dá uma olhada na história:

Você é louca!?



“Você é louca!” ou “Isso é coisa da sua cabeça!”. Essas frases são muito poderosas quando ditas por alguém que você ama. Mas isso também tem nome, se chama “gaslighting” e significa “fazer alguém enlouquecer”, desmentir as memórias do outro, distorcer a história e uma forma de culpabilizar a vítima. E de tanto ouvir isso, a essa altura, você realmente está perdendo a cabeça. Foi assim com D.S, que preferiu não se identificar para contar essa história.

“No começo, eu achei que era insegurança, que o problema realmente estava comigo, que lá dentro de mim tinha algo com o qual eu não sabia lidar. E eu me senti assim por muito tempo. E era horrível”, conta.

Ela esteve em um relacionamento em que o companheiro, a um certo ponto, não apenas admirava mulheres bonitas que passavam por ele, mas ficava completamente absorto, inebriado por longos minutos, a ponto de não se importar com mais nada, ainda que a namorada estivesse ao lado.

“Era uma dor profunda. E quando eu comentava e criticava aquela postura, a resposta era só que aquilo era coisa da minha cabeça”, diz. “Cheguei a perguntar para amigas e amigos sobre aquilo, se viam a mesma coisa que eu, se eu realmente estava ficando louca. Uma amiga me contou que já havia percebido aquele comportamento.”

Eventualmente, o relacionamento terminou, mas D.S. buscou entender tudo aquilo. Foi quando se deparou com um texto sobre o gaslighting. “Foi quando eu percebi que não, não era coisa da minha cabeça. Era não apenas um desrespeito, mas era uma violência emocional contra mim. Aquilo era uma violência e é por isso que eu ficava tão afetada. Porque era uma violência”, afirma.

Nessa busca de si mesma e pelo que passou, D.S. só tem uma certeza:

“Ninguém pode me dizer quem eu sou e o que eu quero. Só eu sei se o que eu quero é bom ou adequado para mim. Assim como não posso dizer o que é bom ou adequado para a vida de qualquer pessoa. Portanto, se os quereres são incompatíveis, qualquer mulher precisa identificar o que está acontecendo e se respeitar – mesmo que isso lhe cause dor a princípio. Respeitar-se como mulher também requer viver a dor de reconhecer uma escolha errada e sair de um relacionamento em que a sua vontade não conta para o outro ou não cabe nos planos do outro. Eu não posso ter vergonha de ser quem eu sou e das coisas que eu quero para manter qualquer situação ou relacionamento.”

“Fazer isso é muito mais do que uma questão pessoal de (falta de) autoestima ou amor próprio. Isso é machismo interno que precisa (!) ser identificado e combatido com urgência. E não adianta jogar a culpa no outro (que não está aqui eximido do machismo e deve, sim, fazer sua autoanálise). O outro também precisa se melhorar, certamente cada um tem sua parcela pra ser humanizada, mas isso é com ele, ele vai ter de passar pelos próprios processos e trabalhar pra isso.

A responsa­­­bilidade é nossa de reconhecer e reagir ao que não nos faz bem. Ninguém transforma a situação mudando o outro.

A responsabilidade do nosso bem-estar é nossa. Devemos agir amorosamente com a própria vida e avaliar muito criticamente as situações para não permitir que nos machuquem, para não nos submetermos a situações e a pessoas que nos reprimem nas nossas vontades mais genuínas, femininas e autênticas.”

D.S. é uma mulher em busca de si mesma

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Por que você se desculpa?



Hoje, como a gente se comunica mais por texto do que por voz, eu consigo apagar desculpas. Eu chamo de "desculpas deletadas", aquelas que no impulso eu digo, mas que por estar em frente à tela, elas ficam escancaradas ao meu olhar, me chamam para a reflexão, me fazem pensar se merecem ser ditas e me dão tempo de não deixar que elas existam. A tecnologia ajuda. Mas é preciso refletir sobre todas as situações em que elas aparecem.

Você já parou para pensar no sentido da palavra "desculpa"? Eu já, mas o "já", pra mim, é depois de 30 anos dizendo incessantemente, e sentindo verdadeiramente, que ela era necessária dentro das relações em que foi usada. A desculpa era culpa. A desculpa era pedir para ser aceita. A desculpa era vergonha. E tem a desculpa que é sempre introdução de frase, "desculpa, mas....". Essa aí é medo. Eu sempre usei todas elas, mas nunca foi um "vai que cola". Eu sempre realmente senti que elas precisavam ser ditas para eu conseguir seguir em frente naquela relação. Mas a desculpa não pode ser banalizada. Tem que existir um erro real para ela ser dita.

Acontece que eu sou pisciana, acontece que eu sou da paz, acontece que eu odeio ser odiada, acontece que eu não gosto de brigar, acontece que eu sou mulher e, o fato é, era só surgir algum homem para eu admirar, para eu me deixar dominar e para eu não conseguir perceber o quanto eu precisava parar de pedir desculpa pela minha existência.

Eu sempre me senti livre para pensar e ser o que quisesse. Mas eu sempre tive admiração pela figura masculina. A verdade é que eu sempre achei o meu pai e os meus irmãos o máximo! Para mim, dizer de quem eu era filha e irmã me dava poder. Até que eu fugi. Sai da minha cidade. Fugi para onde eles não tivessem história, fugi para onde ninguém os conhecesse. Fugi pra ser Marilia. Mas na busca pela Marilia eu conheci muitos homens e parei em outra figura masculina para admirar. Não me encontrei, achei, na verdade, outro ser pra ser devota.

E amigas, é na devoção que a tal da "desculpa" se apresenta no seu pior modelo. Você passa da paixão ao amor, e do amor ao abuso. E você aceita. Aceita se dar sem querer, aceita doar sem ter forças, aceita que é culpada quando não é, aceita que tem que se calar quando era para pedir ajuda, e acredita que tem que valorizar quando na verdade deveria fugir. E aí, ah, aí você já pediu muitas desculpas. E você suplica por um amor que você não precisa: o do outro, quando o que está em falta é o amor próprio.

Mas descobrir isso não é simples, não tem receita (até mesmo porque se você está num relacionamento assim provavelmente você não saiba ou não tenha certeza) e não é rápido. Um dos meus alertas foi quando eu ouvi: "você disse para ela que é minha mulher? Isso te ajudaria". Fugi pra ser Marilia e tinha virado "mulher de alguém".

Por isso que o conselho que dou para qualquer mulher é: tenha amigas. Pode ser uma: a mãe, a prima, a irmã, a vizinha, uma mina do trabalho que você acabou de conhecer. Podem ser muitas. Só confia em alguém e se joga. A união com outras mulheres chacoalha, acalenta, fortalece e salva. E aí você descobre que você não admira a figura masculina, você admira AQUELES homens e que isso é muito diferente (sim, existem homens incríveis).

E então você troca a desculpa por "obrigada", o do agradecimento, não o da escravidão.


Marília Taufic é lemense de nascimento, paulistana de coração, jornalista de profissão e feminista por necessidade e paixão. Em fase de auto descoberta

segunda-feira, 23 de maio de 2016

De como se manter inteira



Quando eu era criança, minha mãe sempre repetia que eu podia ser quem eu quisesse. Por muito tempo achei que era algo como, sei lá, ser astronauta, cientista, presidente. Era, mas não era. Até que um dia, já adolescente, ela repetiu isso de outra forma: você pode ser quem você quiser sem precisar que um homem te diga isso. E disse isso meio que fazendo um mea culpa da própria geração ou da própria vida.

Então, quando cheguei aos 30 e vinha praticando quem eu queria ser, o mundo bateu na minha porta e apresentou a seguinte “regra social”: se uma mulher chega aos 30, ou passa dos 30, ela pode ser quem ela quiser, desde que ela seja também uma mãe. É como se todo mundo definisse a condição da mulher como mulher a partir da maternidade. Mas eu não sou mãe e não existe nenhuma explicação para isso. Simplesmente não aconteceu. Talvez nunca aconteça.

Mas essa revelação mexe muito com as pessoas. Há um desconforto com a afirmação de que uma mulher não vai ser, não é ou não quer ser mãe. Porque a ideia de uma mulher plena no imaginário do senso comum é de que ela é, acima de tudo, mãe. E a plenitude está mesmo ligada à maternidade? Será? O que é plenitude, afinal? Quem a tem, afinal? Existe algum homem ou mulher que sejam plenos o tempo inteiro nesse mundo?

Então passei a experimentar formas para sobreviver, inteira, a tudo isso. Não existe uma fórmula, mas para continuar sendo a mulher que me tornei, e também a mulher que eu quero ser, é preciso ressignificar, o tempo todo, lá no fundo, minha condição de mulher. É como uma lembrança constante, um botão aceso, uma luz interna. É reconhecer que há incompletude em tudo na vida, e que isso, bem, isso é ok.




Aline Fonseca é jornalista, estudante de Letras, encantada com tantas histórias de mulheres incríveis e uma das responsáveis pelo blog

sábado, 14 de maio de 2016

Nunca desistir



Apesar dos meus 45 anos, sinto que a grande transformação de minha vida aconteceu há oito anos, quando fui pega de surpresa pelo falecimento de meu pai. Ele era uma pessoa muito presente na minha vida, a pessoa que me ensinou tudo o que sei, que sempre me ajudou a conquistar tudo o que alcancei.

Posso dizer que minha jornada de vida começou de verdade, mesmo, com a morte de meu pai. Foi quando passei a viver sozinha, com toda a responsabilidade na criação de minhas filhas, nas lutas do dia a dia, na administração da casa, e na continuidade de meus estudos. Muitas vezes me senti assustada, tive medo de que nada desse certo. Mas o tempo mostrou que a minha capacidade de vencer os desafios era enorme.

Criar os filhos sozinha é uma tarefa árdua para uma mulher. E é verdade quando dizem que nós, mulheres, somos multitarefas. E assim busco ensinar as minhas filhas a necessidade de manter viva a força e a capacidade de ser mulher, mesmo diante de um mundo cheio de preconceitos e violências contra nós.

O importante é nunca desistir.

Gabriela Amaral é uma mãe atleta, estudante de Letras e também uma das produtoras desse blog